Sempre elogiaram minha criatividade. E eu sempre me achei um cara criativo. E isso é legal. Eu faço rimas com palavras idiotas mas que, no fim, encaixam-se formando uma piada. E eu não perco piadas. Nem amigos. Sempre soube o ponto em que deveria parar.
Eu desenhava. Não eram desenhos muito bons, minha falta de coordenação sempre me impediu de ser um bom desenhista. Mas os desenhos eram criativos, e disso ninguém nunca discordou.
Eu escrevia. Histórias. Pequenas histórias. E elas se juntavam formando grandes histórias. Criativas. Nunca boas ou ruins, apenas criativas.
E isso eu nunca neguei. Sempre fui criativo. Mas evitava falar disso para não parecer arrogante. Mas fui, ah, sempre fui.
E aí eu alimentava minha criatividade. Sempre achei que para um vilão ser bom ele precisa ter uma história de vida tão boa quanto a do herói. Tipo o Darth Vader. Daí eu pensava que para as pessoas serem importantes, elas precisavam ter boas histórias de vida. Melhores que a minha. Então eu criava as histórias.
E eu percebia situações para as quais ninguém mais dava importância. Desde a guria dando mole para um cara que não se ligava até o pombo se alimentando das migalhas de pastel caídas na rua. Daí eu pensava nos motivos que levevam aquelas coisas a acontecer.
E eu me tornei capaz de pensar em vários desfechos para uma única situação em poucos segundos. E em suas consequências. Se essa fosse uma qualidade de um personagem, certamente seria um estrategista militar. Em um filme sobre batalhas navais.
Isso é bom? Definitivamente não. Porque aí eu conseguia imaginar milhões de hipóteses. Nem todas agradáveis. E por mais que todas as evidências mostrassem o contrário, eu insistia em levantar as suposisões mais variadas possíveis. Não digo insistir: eu não queria. Mas ela aparecia de tempos em tempos.
E um simples semáforo que fecha na minha frente já era o bastante para ativar esse gatilho. E aí eu me perdia totalmente em pensamentos. Nem sempre bons.
E isso começou a me enlouquecer. E agora eu não sei mais o que pensar. Definitivamente, não sei mais o que pensar.
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