terça-feira, 15 de junho de 2010

2000 Light Years From Home

Quando me mudei pra cá, não conseguia dormir.

Não por causa da saudades que eu sentia da minha cidade. Não pelos amigos que, sabia eu, não veria mais. Não pelos amores abandonados, pelas brigas mal resolvidas, pelas tarefas não entregues ou pelo 'bom dia' não dado.

Não por não conhecer nada, isso a gente aprende. Não por não conhecer ninguém, isso eu nem mesmo faço questão. Não pela cidade diferente da qual eu recebia um cumprimento ao abrir a janela pela manhã, pois eu nem abria a janela, afinal de contas.

Não pelo novo cargo exercido na empresa ou pelas novas exigências de contrato. Não pela família, cujo único contato, agora, era através de curtas ligações telefônicas no final de semana. Mas nunca fui muito chegado aos meus irmãos, então não tinha motivos para ligar para eles e acredito que eles só iriam me ligar para dar notícias de falecimento.

Eles que se fodam. Não era por eles que eu não conseguia dormir.

Era pelas estrelas.

Porque toda vez que eu deitava, exausto, eu podia ver o céu através da janela. Na primeira noite, o primeiro pensamento, foi a necessidade de comprar uma cortina para aquela janela. Pensamento que durou cerca de três minutos, o tempo em que eu desgrudei o olhar da janela e olhei através da janela.

E todas as noites, a noite inteira, eu olhava para as estrelas. E era como se elas sorrissem pra mim. Elas me entendiam, ora essa. Elas estavam sozinhas no infinito, inalcançáveis, perdidas na solidão, esquecidas por todos. Eu estava na solidão de um mundo apressado demais para perceber as estrelas, perdido em algum lugar inalcançável das minhas lembranças esquecidas.

Mas nem sempre eu conseguia vê-la. Às vezes a chuva, talvez um dos meus amores mais antigos, voltava para matar as saudades e não me deixava ir ao encontro do meu novo amor. E às vezes o tempo, senhor cruel do qual eu sempre tentei fugir, tomava meus momentos preciosos com elas, ou seu parente próximo, o cansaço, começou a cobrar as prestações do aluguel de minha matéria carnal.

Mas elas sempre me perdoavam. Sempre me diziam que não havia problema, apenas fizesse um esforço para voltar outro dia. E eu voltava. Eu sempre voltava.

Agora, minha vida poderia ser resumida a ver estrelas. Eu vivia por elas, só por elas. E não precisaria de mais nada. Apenas vê-las algumas vezes para aguardar em paz o dia em que eu poderia encontrá-las.

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