Foi a noite mais fria do ano. Duas cobertas não eram suficientes. Todos os casacos que eu tinha no armário não seriam suficientes. Não queria levantar. Não mesmo.
Mudei de lado umas três ou quatro vezes. Meu braço direito estava doendo. Lembrei de uma conversa, há muito esquecida, em que a única frase que ficou gravada em alguma curva do meu cérebro foi "eu só consigo dormir errado".
Ri comigo mesmo. Um sorriso sem emoção.
Roncos atravessavam a parede, vindos de outro apartamento. Uma luz fraca entrava pela janela. Não sabia as horas. Nem queria saber. Não queria esticar meu braço e pegar o celular, que adormeceu ao meu lado, esperando a mensagem que não veio. Troquei de lado novamente.
Me encolhi. Puxei a coberta mais pra cima. Uma música ou outra chegou, vinda de muito longe, e ficou ecoando nos meus ouvidos, embora o silêncio fosse total. Até os roncos pararam. Nem o vento, que balançava aquela árvore lá fora, que me acordou durante várias noites ao bater na janela, existia.
Então eu pensei em você.
E foi isso que me aqueceu, mais do que qualquer cobertor faria, mais do que qualquer agasalho ou qualquer bebida, mais do que qualquer coisa nesse mundo.
Aí eu pude fechar os olhos. E o tempo perdeu a importância. Os problemas, os acontecimentos diários, a vida, o universo e tudo mais. Espero, do fundo do meu coração, que morrer seja assim. Mas espero, também, que eu demore a descobrir.
Só parei quando estava bem longe dali. Muitas pessoas esperavam comigo. Ansiosos, como eu. Ninguém tão feliz quanto eu. E você veio.
E olhei no fundo dos seus olhos e você confirmou. E sorriu. E eu também sorri. E ninguém mais se importou com aquilo. Você me deu sua mão.
A cidade acordou. Também acordei. E, pela primeira vez, não quis acordar. Ainda fazia frio. Mudei de lado e fechei os olhos. Poucos segundos depois, você me chamou. Voltei para os seus braços e você para os meus.
Agradeci Morpheus pelo melhor presente que já tive, mesmo não sendo uma ocasião especial.
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